30/01/2008

AS TRÊS PEDRAS PESADAS
Cristina Fam
Esta história vem de uma leitura escolar de meados do século XIX.
Era nos confins do deserto, entre rochas desnudas e inacessíveis, que Ben Achmet, o Dervixe, levava uma vida de austeridade e devoção. Uma caverna nas rochas era sua morada. Raízes e frutas, escassos produtos da estéril região que habitava, satisfaziam-lhe a fome, e a fonte borbulhante embaixo de um penhasco das redondezas saciava-lhe a sede.
Ele um dia foi sacerdote numa imponente mesquita, e conduzira escrupulosamente as cerimônias da fé maometana. Mas, na busca de uma vida de total devoção, abandonou a mesquita e sua autoridade sacerdotal e foi se instalar no deserto para levar seus dias como eremita.
Anos se passaram para Ben Achmet, e a fama de sua santidade se espalhou por terras longínquas. Ele frequentemente supria os viajantes do deserto com água de seu pequeno poço. Nos tempos de praga, deixava sua solitária morada para cuidar dos doentes e confortar os moribundos nas vilas que se espalhavam pela região. Muitas vezes estancou o sangue de árabes feridos, curando-os. Sua fama se espalhou pelo mundo; seu nome inspirava veneração, e até mesmo os nômades saqueadores desistiam de seus ataques a pedido de Ben Achmet, o Dervixe.
Akaba era um ladrão árabe. Tinha um bando de homens sem lei sob seus comandos prontos a fazerem o que mandasse. Possuía um depósito recheado de tesouros usurpados e um sem-número de prisioneiros. A santidade de Ben Achmet chamou-lhe a atenção; sua consciência o atormentou com culpas, e passou a desejar fama tão grande por sua devoção como tinha sido por seus crimes.
Ele foi até a morada do Dervixe e falou-lhe de seus anseios.
- Ben Achmet – falou-, tenho quinhentos ladrões prontos a me obedecerem. Tenho um sem-número de escravos sob meu comando. E tenho um ótimo depósito recheado de tesouros. Diga-me como acrescentar a isso a esperança de uma imortalidade feliz.
Ben Achmet levou-o à base de um penhasco próximo, que era bastante escarpado e alto. Apontando para três pedras grandes que se encontravam perto umas das outras, disse-lhe para pegá-las do chão e segui-lo recedo acima.
Akaba, carregado com as pedras, mal podia se mexer. Subir o rochedo era impossível.
- Não posso segui-lo com esta carga, Ben Achmet – disse ele.
- Então livre-se de uma das pedras – respondeu o Dervixe – e siga-me depressa.
Akaba largou uma, mas seu fardo ainda era pesado demais para prosseguir.
- Estou lhe dizendo que é impossível – gritou o chefe dos ladrões. – Não consigo dar nem um passo com tamanha carga.
- Largue outra pedra, então – disse Ben Achmet.
Akaba prontamente soltou no chão a segunda e, com grande dificuldade, subiu um pouco. Mas logo, exausto pelo esforço, gritou novamente que não poderia seguir adiante.
Ben Achmet disse-lhe para largar a última pedra, o que de pronto atendeu, e se pôs a subir com facilidade, logo chegando junto com seu guia ao topo do rochedo.
- Filho – disse Ben Achmet -, você tem três cargas que o atrasam no caminho para um mundo melhor. Dispense sua tropa de saqueadores sem lei. Liberte os prisioneiros. Devolva as posses roubadas a seus donos. É mais fácil para Akaba subir este rochedo com estas rochas que jazem sob seus pés do que seguir em busca de um mundo melhor ambicionando poder, prazer e posses.